Trip Estados Unidos 2026 #1: Joshua Tree e Red Rocks (Rainbow Wall, Original Route)

Em 2025 conheci o Lachlan, que veio da Austrália passar uma temporada em Itatim, escalamos bastante por aqui e ele fez um curso de escalada em móvel comigo ainda nessa ocasião.

Alguns meses depois ele me enviou uma mensagem perguntando se eu tinha visto pros EUA e se eu tinha vontade de escalar o El Capitan. Respondi que sim, que seria um sonho. Mais alguns meses depois estávamos lá, sonhando acordado!

Lachlan tinha planos ambiciosos, grandes vias, e começamos a planejar, treinar e estudar, cada um de nós em um lado do mundo: fendas, móvel, jumar, haulbags, sistemas, etc. Depois o Josh, também australiano, amigo do Lachlan, se juntou ao time. Reunimos o equipamento necessário pros objetivos, e o que faltou compraríamos lá.

No dia 23/03/26 saí de Itatim, peguei um vôo de Salvador pra Los Angeles, com escala no Panamá. Encontrei os parceiros no aeroporto de LA no dia 24, eles já estavam com o carro alugado e já tinham feito algumas compras. Dormimos uma noite no hostel Samesun Hollywood, caminhamos na calçada da fama e visitamos o Observatório Griffith e no dia seguinte pegamos a estrada pra Joshua Tree!

Foto: Josh Hendo

Fotos: Josh Hendo

JOSHUA TREE

Pela segunda vez cheguei nesse lugar super especial, que me lembra muito o lugar onde vivo. Clima desértico, granito laranja, céu azul, cactos, areia, pedras a perder de vista, acessos fáceis. A diferença é gritante no número de vias, 700 em Itatim e 16 mil em JT. As vias em JT não são muito longas, possuindo uma ou duas enfiadas no máximo, mas a extensão do parque é enorme, e os grandes blocos que cobrem a superfície se estendem por 3.200Km², área aproximada do Parque. Em 2024 pude conhecer algumas escaladas espetaculares por lá, veja o relato aqui.

Acampamos no Indian Cove, tínhamos reservado com antecedência um site nesse camping do parque, a portaria estava fechada quando chegamos, mas nosso nome estava na lista em um papel pregado na guarita. Armamos as barracas sob um sol escaldante, e fomos buscar alguma escalada nas proximidades, na sombra. Fizemos a Mosaic Wall (5.7) e a Apparition (5.10), uma clássica. Depois descobrimos que o Hidden Valley é outro camping um pouco mais alto e com temperaturas normalmente mais amenas, mas pra quem não pretendia ficar de dia no camping, não foi um problema. De noite fomos à uma reunião dos Friends of Joshua Tree, onde rolou um quizz bem divertido sobre escalada em Joshua Tree, com direito à pizza e cerveja. Foi no mesmo local onde fiz o slideshow sobre Itatim em 2024. Obrigado pelo convite, Todd!

Apparition, Foto: Lachlan

Dia 26 fomos à Innersection Rock, uma das formações mais famosas do parque, ao lado do estacionamento. Escalamos a Doble Cross (5.7), uma fenda bem legal no Old Woman, logo ao lado, depois a Lower Right Ski Trak (5.10), uma grande diagonal com um lance crux no início em agarras super polidas (única via que escalei assim por lá). Depois fomos pro Hamingway Butrees, onde entrei na Poodles Are People Too (5.10b), bem técnico em uma fenda fininha, e os parceiros fizeram a White Lightning (5.7).

Doble Cross – Foto: Lachlan
Topo da Innersection Rock pela Lower Right Ski Trak – Foto: Lachlan
Josh seguindo na Lower Right Ski Trak – Foto: Lachlan
Hamingway Butrees
Poodles are People Too – Foto: Lachlan
Lachlan na Lightning

Dia 27 era dia de pegar a estrada pro próximo destino, mas estávamos acampados na base de um setor, então aproveitamos pra fazer umas escaladas rápidas nas vias dali, que não eram super clássicas, mas legal: Spood Overhang e Genuine Cowhide, ambos 5.10?  Escaladas curtas com cruxes negativos boulderísticos no início.

Nossas barracas na base das vias que escalamos.

Joshua Tree foi um início de viagem incrível,  onde pudemos escalar os três juntos pela primeira vez, nos conhecer melhor, experimentar algumas vias muito legais, todas em móvel, com fendas mas em uma rocha com ótima aderência, sem nenhum grande comprometimento. Pude rever alguns amigos e curtir esses visuais incríveis!

 

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RED ROCKS

Pegamos a estrada até Las Vegas, foram cerca de 3h de viagem, aproveitamos pra reabastecer os mantimentos e descansamos o resto do dia, tomamos o primeiro banho depois de Los Angeles e demos um passeio rápido pela cidade.

Chegando em Red Rocks – Foto: Josh

Dia 28 acordamos e tentamos entrar no parque por volta das 9h, mesmo tendo a permissão anual para os Parques Nacionais, não conseguimos entrar pois deveríamos ter feito uma reserva, e já estava lotado. Fomos então para a área do Calico Basin, que fica de fora desse acesso e tem um monte de vias legais também. Escalamos algumas esportivas que não estavam cheias (era final de semana), Crimson Creem (5.10), Cool Ranch (5.11a) e depois botei pilha de fazermos uma escalada rápida em uma parede de 3 enfiadas ali perto, fizemos a Soulshine (5.9), que nos foi recomendada por alguém por ali. Ótima recomendação, linda escalada naquela rocha “platinada” marrom super sólida, boa proteção fixa, fizemos rápido, foi legal pra entrosar mais o time, descemos por caminhada.

Lachlan na Cool Ranch
Josh na Soulshine
Diversão garantida!
Lachlan no topo da formação onde tem a Soulshine

Dia 29 foi dia de começar o primeiro grande desafio da trip: Rainbow Wall! Original Route foi o trajeto escolhido, simplesmente uma das melhores escaladas que já experimentei, um grande diedro evidente no meio da muralha que é a Rainbow Wall, uma via com uma qualidade excepcional e de dificuldade constante, com enfiadas de até 5.12a em suas 13 enfiadas.

Aproximação pra Rainbow Wall

Nosso plano foi fazer a escalada em 2 dias, dormindo em um platô no meio da parede. Éramos três e seria nosso primeiro bigwall juntos, e o primeiro da vida do Lachlan e do Josh! A logística foi a mais simples e light possível. A nosso favor, a via exigia pouco equipamento: uma corda de 70m + 1 retinida de 8mm, 1 jogo de camalots do #.2 até o #3, duplicados até o #.5, e um jogo de nuts. Como as enfiadas são curtas, na maioria delas fizemos da seguinte forma: O Guia escalada e quando chegava na parada puxava a sobra da corda e fixava ela na parada (ou montava a seg), enquanto o primeiro participante começava a escalar ou jumarear, o guia puxava o haulbag (70l, ok com um microtraxion), quando o primeiro participante chegava na parada, tínhamos corda suficiente pra escalar a próxima enfiada enquanto o segundo participante jumareava pela corda fixa, assim não perdíamos muito tempo estando em 3 pessoas. Muitos betas bons tiramos desse relato. Ah, nos organizamos pra entrar na via durante a semana, evitando um pouco o crowd.

Mas começando do começo, acordamos de madrugada, não lembro a hora exata, e levamos um bom tempo do hotel em Vegas até o Pine Creek Parking, cerca de 1h se não me engano. Dessa vez a guarita da portaria estava fechada porque ainda estava cedo, então apenas entramos,  mas nós tínhamos pegado no dia anterior uma permissão online pro carro passar a noite no estacionamento, porque o plano era sair só no dia seguinte. Começamos a caminhar 6:50, adentrando o cânion passando por paredes incríveis, chegando na base dos slabs às 8:30, de lá mais 1h sofrida até a parede.

Quase na base da via

Tinha uma cordada na via, na primeira enfiada ainda, mas felizmente eles estavam apenas praticando as primeiras enfiadas e desceriam logo. Por isso conseguimos começar a escalar às 10h40.

Josh começou guiando, pela variante da esquerda da primeira enfiada, e já fez bonito na cadena um 5.11c e de difícil leitura! Peguei a ponta da corda e toquei a bela e exigente P2, que começa em uma oposição e segue por agarras por fora e lances de diedro, talvez a mais atlética das enfiadas. A terceira foi mais pelo diedro em oposição sem muito mistério e a quarta enfiada, se não me engano, está diferente das fotos que tínhamos visto, parece que o “bomber block” do início não está mais lá, e tem um lance divertido/estranho pra fazer. Depois mais um monte de oposição até a P6, onde cheguei com muita luta, mas e sem nenhuma queda.

Josh começando a primeira enfiada
Segunda enfiada
Terceira Enfiada?

Lachan e Josh tocaram a P7 e P8, que são um pouco mais confusas na navegação pois saem do diedro principal e buscam o platô do bivaque  bem à direita. Eles mandaram bem e nos levaram ao belo platô do bivaque, onde curtimos o fim de tarde vendo as luzes de Las Vegas e passamos uma boa noite de sono.

Las Vegas à noite vista do platô do bivaque
Amanhecer no bivy

Dia 30 acordamos tranquilos, tomamos café e Lachlan tocou a P9, mais uma diagonal, dessa vez pra esquerda, que nos levou de volta no grande diedro principal. Toquei a P10 e a P11, duas joias da escalada, com direito a bote saindo de um diedro em tesoura pra uma agarra gigante! O vacilo do dia foi uma queda meio de bobeira praticamente no último lance da enfiada de 5.12, por pouco não saí com a cadena completa. Josh tocou a P12, e eu a 13a, chegamos ao cume às 13h. Estava uma ventania fortíssima vindo do outro lado da montanha, tiramos algumas fotos e começamos a rapelar. Chegamos no chão as 16h e depois de mais 2h de descida da trilha, chegamos no carro.

Travessia
P10
Cara de quem caiu no décima enfiada, no último lance que nem era tão duro, depois de acertar dezenas de lances malucos e exóticos de primeira. Depois acertei, e toca pra cima!
Penúltima enfiada
Livro de cume estava cheio
Fugindo do vendo pra assinar o livro de cume

Essa foi sem dúvida nenhuma uma das vias mais legais que já escalei na vida. O grau é duro, conforme esperado, a escalada é super técnica, mas a movimentação muito variada, não se trata apenas de apertar agarras pequenas, tem que ter muita criatividade! As proteções são boas, tem grampos (químicos) onde não dá pra proteger bem. A textura da rocha é ótima, não parece à primeira vista, mas a aderência funciona bem. Se tiver a oportunidade, não deixe de ir nessa!

 

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Dormimos uma última noite em Vegas e seguimos viagem pra Zion, Bishop e Yosemite Valley, conto essas no próximo post. Thanks Noz and Josh, you are the best!!

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