Pedra Riscada – Escalada na via Moonwalker

Mais um relato da série antes tarde do que nunca, dessa vez sobre a escalada que fiz em 28 de abril de 2025, com os parceiros Diego e José, guiando-os na Moonwalker, uma das vias do livro 50 Vias Clássicas no Brasil.

Minha primeira escalada na Pedra Riscada foi em 2012, na via Divina Liberdade, e desde então, já voltei algumas vezes lá, tendo completado até 2024 quatro cumes (três deles com escaladas em um dia) e um “quase” cume, os relatos de todas essas empreitadas você encontra aqui no site. Essa experiência local, somada aos anos trabalhando com escalada, tanto ensinando quanto guiando pessoas nos mais diversos objetivos, me permitiu encarar essa grande montanha de um jeito diferente, dessa vez propus uma escalada guiada, ou seja, meus parceiros seriam também clientes, o que aumenta muito minha responsabilidade e torn o desafio um tanto diferente de quando se escala com um parceiro habitual.

A Moonwalker é uma via de 1120m, com graduação geral de 5° e crux de 5°sup (BR), com grau de exposição E3, ou seja, uma escalada com graduação acessível, porém suuuuper extensa. Inicialmente ela era mais escalada em dois dias, fazendo um bivaque em uma matinha que tem no platô na 13a enfiada. O inconveniente dessa estratégia é que no primeiro dia tem que escalar as 13 enfiadas com mochilas pesadas nas costas, com água, comida e material de bivaque, pois pela positividade da parede e pela característica da rocha ser cheia de cristais, é inviável içar as mochilas. Depois ela começou a ser repetida em apenas um dia, e acredito que hoje em dia seja a forma mais comum, inclusive ela já teve algumas repetições impressionantes na faixa de 3h e pouco.

1200m de granito

Quem acompanha o blog há alguns anos e já leu outros relatos meus na Riscada sabe que normalmente sou do time do rápido e leve, e dessa vez não foi diferente. A proposta mesmo antes de eu saber quem seriam meus parceiros era de fazer uma tentativa em um dia, com um ponto de corte às 15h, desceríamos de onde estivéssemos, para não rapelar a noite.

Quando anunciei a empreitada na minha página do Instagram, algumas pessoas demonstraram interesse, duas delas se tornaram os grandes parceiros nessa aventura: Diego, que escalava há pouco tempo, mas pudemos escalar bastante juntos no período que ele passou em Itatim, quando ele fez os cursos Básico e Guia de Cordada comigo, eu já sabia que ele seria sangue nos olhos e fechamos a primeira vaga da cordada. O segundo parceiro foi o José, que também já tinha feito algumas escaladas aqui em Itatim comigo, como Arco e Jardineiro, além de ser super nerd da escalada, talvez até mais que eu. Formado o trio, começamos a planejar a estratégia!

Começar super cedo, escalar rápido e tanto quanto possível em simultâneo, hidratar-se, comer bem e estar sempre que possível em movimento, sem necessariamente correr, e não cair. Usamos uma corda de 70m onde o guia ia na frente, um participante no meio, e outro no final. Na maioria das vezes eu emendava duas enfiadas e terminava de puxar os participantes. usamos 2 polias blocantes para evitar que os participantes puxassem o guia pra baixo em caso de queda. Levamos muitas costuras pra permitir escalar mais de 100m sem parar. Uma segunda corda fina foi transportada como retinida ao longo da via, pra ser usada no rapel. Todos de acordo com os sistemas escolhidos, partimos pra missão!

No meio das nuvens!

Saí no dia 27 de Itatim com o Diego, e rodamos os quase 1000km pra chegar em São José do Divino/MG, onde nos hospedamos na Pousada Dois Irmãos, onde o José já nos esperava. Jantamos, arrumamos as mochilas, checamos a previsão e fomos dormir o mais cedo que conseguimos.

Dia 28 acordamos cedo e saímos da pousada às 3:45 da manhã, chegando no estacionamento às 4:15. Não tínhamos feito o reconhecimento da base no dia anterior pois não deu tempo, mas tínhamos o track no GPS e alguns bons betas, foi tranquilo, chegamos à base da via às 5h.

Parceria boa!!

Começamos a escalar ainda no escuro, por volta das 5h30 e seguimos conforme o planejado, praticamente de duas em duas enfiadas pela primeira parte da via, canaletas infinitas até o bloco entalado, na P5, onde às 7h10 paramos pra dar a primeira respirada. Seguimos então pelas canaletas infinitas, agora com as chapas mais distantes, o que nos fez mover-nos um pouco mais lentos, a P8 é o primeiro platô de mato da via, um lugar incrível pra mais uma rápida respirada e um breve descanso pras pernas. Algumas canaletas depois chegamos às 10:30 na P12, onde começa a matinha.

Nas primeiras canaletas
Ganhando altura, por volta da décima enfiada.

Dessa parte em diante a escalada muda um pouco de cenário, as canaletas desaparecem e a via segue pela face, ainda com cristais e ainda com enfiadas longas, que seguimos escalando no mesmo sistema, conectando duas a três enfiadas de uma vez, às vezes menos. Estávamos já obviamente, conforme esperado, com os pés doendo, o José reclamava bastante, mas seguia firme escalando, estávamos dentro do tempo previsto e o Diego na motivação mil.

Décima quarta enfiada
começo do trepa mato

Na P18 tivemos uma decisão a tomar, a primeira opção era seguir reto pela face, fazendo o final original da via Prisma, que segundo o croqui é mais bonito, porém mais exposto, como também tínhamos ouvido relatos de que além da exposição, a rocha era meio ruim, seguimos pela segunda opção, o final original da Moonwalker, que desvia da Prisma e segue por um trepa mato à direita. Não gostei nem um pouco dessa parte, pois tive que me equilibrar nuns tufos de terra sobre a rocha e “equalizar” o peso em alguns matinhos que não me inspiraram muita confiança, achei meio estranho e parece que algo ali vai desmoronar a qualquer momento. Mas deu certo, consegui fugir do mato um pouco antes do final e ainda costurar uma chapa antes da parada. Puxei os parceiros e ás 15:20 concluímos a escalada, nem 5 minutos depois já estávamos rapelando.

Pra quem não sabe, a Moonwalker não chega no cume verdadeiro da Riscada, ela termina antes, onde a vegetação toma conta da pedra de vez, o cume é quilométrico, uma floresta gigante, então praticamente todas as vias terminam em algum ante cume ou no final da parte rochosa.

final do trepa mato
Última parada da via!

O rapel é uma aventura a parte, são 20 deles, quase todos com duas cordas. Pra sermos mais eficientes, pois estávamos em três, descíamos dois primeiro cada um em uma corda, que estavam “fixas” pois quem ficava pra trás já estava com seu freio e backup montados, o que bloqueava as cordas pra descermos paralelamente, sem estar em contrapeso. O terceiro vinha rapelando normalmente.

No rapel da P12 não visualizei bem o posicionamento da corda pra evitar o atrito e nós não conseguimos puxar ela, mas rapidamente escalei com a ponta que sobrou e consegui desatar o emaranhado entre as cordas que estava impedindo ela de descer. Exceto por esse momento, não tivemos mais nenhum problema de cordas enroscarem, especialmente nas canaletas, ela descia lindamente! Estávamos cansados e seguíamos num ritmo constante, o José estava bem cansado e rapelava mais devagar, com bastante cuidado pra não fazer nada errado. No sistema que fizemos ele ficava por último, mas a vantagem é que montávamos nossos freios todos juntos na parada, então sempre estávamos conferindo uns aos outros também. Então seguimos descendo tão rápido quando podíamos. Vimos uma chuva aparentemente pesada, não prevista, se aproximando a oeste, e aceleramos o passo.

Quando estávamos na árvore da P1 começou a chover, descemos e pisamos no chão por volta das 21h, mas enquanto puxávamos a corda se formou uma cachoeira na base, com toda a água que vem da gigante canaleta da via Esmurgator (ao lado da Moonwalker). A corda veio, mas se enroscou nos blocos da base, onde começou a formar uma piscina. Conseguimos enrolar uma das cordas, jogamos na mochila e começamos a descer a trilha, largando a corda pra trás.

Achar o carro também foi uma grande aventura, descemos o morro sem enxergar nada direito e depois de um bom tempo perdidos fugindo dos brejos que se formaram na chuva, finalmente chegamos no curral e no carro. Aí foi só vestir a roupa quentinha e seca e voltar pelas estradas de barro, que não sei como não atolamos, até a pousada!

No dia seguinte fomos buscar a corda que largamos pra trás na base, sem maiores problemas.

Assim foi concluída mais uma expedição Pedra Riscada, essa gigante brasileira! Pela primeira vez pude sentir a força da água nessa montanha, felizmente estávamos com os pes no chão, mesmo assim, foi uma experiência inesquecível.

Agradeço muito aos parceiros de cordada Diego e José, que toparam e confiaram nessa ideia maluca, treinaram, e deram duro pra fazer bonito lá, além de manter a moral em alta o tempo todo!

Depois foram alguns dias de descanso esperando o tempo firmar novamente pra encarar mais uma, dessa vez com Otto, mas isso fica pro próximo relato.

Betas extras: As paradas estavam todas equipadas com argolas, não foi necessário abandonar nada de material pra rapelar na via. Usamos rádios, microtraxion, luvas, levamos um bom agasalho, quando parávamos fazia frio, mesmo estando numa época de calor na cidade. Cheque se suas cordas realmente tem 60m antes de ir lá, pois você vai precisar de cada cm delas em alguns rapéis. As proteções são de carbono e ainda estavam aparentemente em estado razoável. O croqui do 50 Clássicas é perfeito, fique atento às indicações na hora de sair ou entrar nas canaletas. Eu não iria pelo trepa-mato em uma próxima vez, mas não que seja a melhor escolha =)

Se você gostou desse ou de outros conteúdos desse blog, considere me “pagar um café” (ou um bolt), clicando no botão abaixo:

Buy Me a Coffee

Um comentário

  1. Obrigado pela guiada e parceria nessa aventura Cauí! Foi demais, ficou gravada na memória e no coração

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *