Em 2023 foi concluída a segunda via de escalada na Cachoeira da Fumaça, em Palmeiras, na Chapada Diamantina, BA, aberta pelos amigos Chiquinho, Guilherme Pahl, Ruddy, Caiuá e Potinho. Localizada na parede à direita da cachoeira, quando vista de frente.

Algum tempo depois, em setembro de 2023, a convite do Ruddy, que queria terminar encadenar as enfiadas que faltavam, saímos de Itatim, Marcel e eu, em direção à Lençóis, onde encontramos Ruddy, passamos a noite e seguimos pro Vale do Capão, entrada da cachoeira, no dia seguinte de madrugada.
O plano era fazer em dois dias, fora o dia de aproximação, tempo médio recomendado, devido à dificuldade da escalada. O Ruddy já tinha feito em um dia com a Luan, Caiuá e Potinho, mas nos recomendou fazer em dois dias pra desfrutar mais!
A cachoeira estava completamente seca, o que a pesar de não nos proporcionar o visual ainda mais incrível, nos poupou de tomar alguns banhos dela durante a escalada, conforme relato dos amigos durante a conquista e primeiras repetições.
Começamos a caminhada às 5h50 do dia 24/09, subimos até bem próximo ao topo da cachoeira e pegamos uma discreta trilha à direita que nos levou a “Fenda”, um dos caminhos mais curtos pra chegar por baixo da cachoeira, a trilha é turística, mas já bem menos frequentada, por ser bastante íngreme. Chegamos à base da via às 10h40 da manhã, e apesar da minha pilha de começarmos logo, mantivemos o plano inicial e passamos a tarde descansando, coletando água e nos nutrindo pros dias seguintes, que foi uma ótima decisão.

No dia seguinte começamos a escalada, Marcel na ponta da corda tocou a primeira enfiada, 7c que começa em uma placa delicada, negocia com uns blocos e faz o crux negativo com agarras pequenas, depois aguenta a resista até a parada.

A segunda enfiada é apenas uma curta travessia pra “mudar de lugar” a parada, que eu guiei. Ruddy tocou a terceira, que é a única enfiada que não tem cadena, com grau estimado na casa do 9°, bastante negativa, que rende ótimas fotos. Fizemos em artificial predominantemente fixo, mas um pouco trabalhoso devido à negatividade.

Guiei a quarta enfiada, um 7b que começa na placa com chapas e algumas peças pequenas e depois sai pra esquerda num flake negativo com boas agarras.


Ruddy tocou a quarta, 8a com crux bem definido na chapa, depois segue em móvel com boas agarras pela direita, e logo pela esquerda até a parada.

A sexta enfiada é uma travessia pra esquerda, que começa a dificultar o processo de um possível rapel, 6°sup que o Marcel guiou.
Esse relato tá sendo escrito tardiamente, quase 2 anos após a escalada, mas eu me lembro bem da sétima enfiada! Enfiada mista buscando à esquerda e procurando uma saída pra dominar o platô de mato, rack completo, rocha frágil no final, fitas longas e sangue nos olhos!

Chegamos ao platô do bivaque às 13:30, um pouco cedo, mas já bem cansados. Mais uma vez eu entendi que valeu a pena optar por fazer em 2 dias. O platô é enorme, praticamente uma floresta onde se pode caminhar livremente. Andamos pra direita até encontrar um ponto bom pra esticar os isolantes, ali perto pudemos também coletar mais água e tivemos mais uma bem-vinda tarde de descanso! O fato de ter pontos de coleta de água na base e no platô do bivaque facilita muito a logística, como estávamos na época seca, coletar água demorou, por sorte, tínhamos tempo. Por isso precisamos içar apenas um haulbag grande pra nós três.

O segundo dia de escalada começou nublado, por volta das 7h comecei a guiar a oitava enfiada, 7b, que começou fácil, depois passou por uma laca “gorda” com chapas, dominando um platô e seguindo com regletes meio até a parada. Nessa eu passei o crux com certa dificuldade, mas fiquei inseguro nos regletes que me pareceram frágeis, e acabei dando uma roubadinha na última costura, mas os parceiros subiram sem quedas.

A nona enfiada, guiada pelo Ruddy, é uma travessia técnica pra esquerda, virando uma aresta, e depois seguindo reto e voltando um pouco pra direita no final. VIsup todo em móvel.

Marcel tocou a décima e eu a décima primeira, um grande diedro em móvel, saindo pra esquerda onde tem um pequeno bloco encaixado, seguindo buscando a aresta e depois dominando por ela e saindo pelo mato pra voltar pra esquerda no platô, essa é toda em móvel, um pouco mais “matagosa” e úmida.



Ruddy tocou a décima segunda, 7c, por um bonito sistema de fendas saindo pela esquerda do último teto e depois voltando pra direita.

A 13a é uma chaminé e um domínio pro cume, que o Marcel guiou, nos tirando das sombras da parede por volta das 13h!

No cume fomos ao “poço da maternidade” onde tomamos um banho e um café antes de começar a descida pela trilha, que fizemos bem rápido pra fugir do sol.
A via é exigente, predomina a escalada de sétimo grau, poucos 7a’s, a maioria b ou c, mais um 8a e um A1, não lembro a extensão exata, mas chuto algo mais que 350m. A proteção é boa, tem chapa onde precisa, mas ainda assim está loge de ser uma “escalada esportiva”.
O lugar é mágico, eu só conhecia a cachoeira da fumaça por cima, que já é impressionante. A trilha por baixo por si já vale a pena, mas passar dois dias desvendando duas paredes por uma via bonita e desafiadora foi uma experiência! Obrigado todos os conquistadores, e também aos parceiros de cordada dessa empreitada!!

