Um Gole de Coragem – Garrafão – Ecoporanga/ES

Continuando o resgate de algumas escaladas cujo relato eu ainda não tinha feito por aqui, segue agora a história da minha primeira visita ao Espírito Santo:

Lembro de uma das primeiras edições do Mountain Voices que eu tive, com foto do Ed. Padilha e companhia na capa, pendurados numa parede enorme chamada Garrafão, em Ecoporanga, ES. Na ocasião eles estavam abrindo a via chamada “No Gargalo”, o ano era 2005, eu estava começando a escalar. Dois anos depois, Valdesir, que participou da conquista, retornou, com Chiquinho, Tom e Willian, com quem abriu uma grande variante, saindo direto do chão e chegando no grande platô onde começa a 8a enfiada original. Daí pra cima a via segue a mesma linha original até o cume, totalizando 530m de enfiadas até 9b/c: Um Gole de Coragem!

Em agosto de 2023, Ruddy estava passando uns dias em Itatim e botou pilha de irmos provar essa via. Já faz tempo e não lembro alguns detalhes da logística e do planejamento, além do que eu tinha anotado em uma nota no celular, mas saímos de Itatim e tocamos um dia cheio na estrada até Ecoporanga, onde contatamos o dono do terreno que gentilmente nos cedeu um espaço próximo à pedra pra acamparmos. Apesar do aviso de que nosso carro não chegaria lá devido às condições da estrada, o Uno não decepcionou, e deu tudo certo.

Sábado, 05/08 partimos com os dois haulbags lotados com equipamentos e mantimentos, mas nem na parede nós chegamos nesse dia! Não lembro se foi inocência ou esquecimento, mas não levamos um facão, o que nos fez rodar 5h no mato tentando achar um caminho até a base, sem sucesso. Retornamos ao acampamento e saímos de carro pra pedir um facão emprestado em alguma casa na vizinhança.

Domingo saímos às 6h30, já com luz do sol pra ajudar na navegação, sem mochilas, só pra abrir a trilha. Foram 2h até a base da via, onde descansamos um pouco e voltamos pra pegar os haulbags. Agora com a trilha aberta, foram cerca de 40min de subida apenas!

Começamos a escalar pouco depois do meio dia e eu peguei a ponta da corda, subindo por uma placa com agarras, que levou ao sistema de fendas largas por onde seguiam as próximas enfiadas, com um lance em tesoura ainda antes da P1 (VI grau com 12 chapas).

Ruddy tocou a segunda enfiada, graduada em 7b, com direito a diedro, offwidht e jungle fight. Fazendo render o camalot #6. São 12 chapas + #.5-6 (2x #5 e .75 e 3).

Toquei a terceira enfiada, com uma saída em OW, protegendo com um .2 e camalots grandes a vontade (#4-6). Há 2 chapas nessa enfiada.

A quarta enfiada é uma enfiada de transição entre dois sistemas de fenda, ela começa em um diedro fino e difícil de proteger, e segue com chapas por uma placa beem lisa, seria uma das enfiadas mais duras para livrar, mas essa subimos em A1 mesmo, com peças pequenas até o #2 e cerca de 12 chapas. Chegamos às 18h na P4, onde fixamos uma corda até uma parada fora da via, 60m abaixo e, dessa parada mais uma corda de 60m até a P1 e outra pro chão.

Dormimos no acampamento base e subimos no dia seguinte mais leves pela trilha e jumareamos as cordas fixas, chegando à P4 às 8h15.

A quinta enfiada já deu indícios da vegetação que teríamos que encarar, começa por uma fenda larga, domina um platô com uma árvore que deu trabalho pra desvendar o lance, e segue por uma fenda frontal que estava entupida de mato. Foram 35m de livre/artifo/salve-se quem puder com 11 costuras + #.3 ao 6 (2x 1-5).

Ruddy entrou na sexta enfiada por um A0 de chapas que estavam em baixo de um emaranhado de espinhos, e assim seguiu por uma fenda larga e pra esquerda por baixo de um teto, até a P6. #.3 ao 5 (2x #.5 e .75) + 5 chapas.

Um curto lance em livre e mais uns espinhos nos levou à corda fixa que leva por uma horizontal de mato até a P7 onde, calculávamos erroneamente que seria um possível bivaque. O platô era muito escorrido, então tivemos que apertar os dentes e agilizar pra tocar mais 2 enfiadas antes de escurecer, de preferencia!

A oitava enfiada é uma fenda larga, bem bonita, onde usamos jogo duplo do #1 ao 6, mesmo graduada em VIsup já nos custou lances em artificial.

Na minha vez, comecei em agarras e segui por fendas variadas em artificial, onde usei o rack completo, até chegar às 18h30 no platô do bivaque. Esse sim, um platô de verdade, grande o suficiente pra caminhar e tirar a cadeirinha com tranquilidade. Felizes por chegar lá, onde a via “Um Gole de Coragem” se une à “No Gargalo”, mas meio tristes, pois sabíamos que nosso tempo estava acabando. A terça feira seria nosso último dia de escalada, pois eu teria que retornar na quarta-feira pra trabalhar. Sabíamos que não teríamos tempo o suficiente pra concluir a escalada, confesso que fiquei um pouco arrependido de não ter jogado tudo pra cima e continuado lá pra uma tentativa até a último recurso, mas também não estava em uma fase boa pra recusar trabalho.

Decidimos acordar tranquilos e experimentar a próxima enfiada, um lindo diedro que nos custou um tempo razoável pra fazer até a chapa da metade, ajudando a aceitar a ideia de que não daria tempo de concluir a via. Ainda arrisquei subir de top rope em livre pra limpar, e realmente o negócio começa a ficar bonito ali! Tão bonito quanto difícil! A cor da parede muda, a vegetação some e pelo relato dos conquistadores, ali começa a parte interessante. Rapelamos de lá, e lá está mais uma pendência…

Abaixo um pequeno vídeo da empreitada, no meu perfil do instagram:

https://www.instagram.com/reel/Cv3IN88tH2Z/

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